sexta-feira, outubro 02, 2009

As Imaculadas Mulheres da Conceição


As Imaculadas Mulheres da Conceição


Hoje voltei a São José. Ao velho e saudoso Orfanato São José, Colônia  Agrícola de São Jose, que já foi Escola Normal São José e hoje é São José apenas. Não apenas por ser só isto, mas por tudo o que em si significa São José.

Colônia, pois assim era chamado o lugar onde se vivia da roça, na roça e na convivência pacífica dos primeiros nordestinos que chegaram à Santarém e alguns poucos caboclos, raros, que ficaram ali na terra seca, mas produtiva. Terra sem água naqueles anos idos, lá por volta de 50 e 70. Parecia ser como perseguir a dor para aqueles nordestinhos de origem sertaneja, agreste, de secas eternas, tão eternas quanto as promessas de solução e as velhas cacimbas que guardavam água das chuvas de inverno a inverno.

Naquele abrigo centenas de órfãs, muitas delas de pais vivos, recebiam alimento para o corpo e para o espírito. Ali no meio do nada e sem nada que não fosse a ajuda de governos estrangeiros na “Aliança para o Progresso”,  lutavam para mudar o destino que as condenou à orfandade gratuita e sem perspectivas, pelo trabalho e pela educação. No trabalho braçal aquelas mulheres, freiras e órfãs, plantavam dezenas de hectares de arroz, cana de açúcar, feijão e mandioca e com isto eliminavam a fome de si mesmas e de seus agregados.

Há 50 anos passados orgulha-me pensar que já havia um conceito de educar para a vida na concepção daquelas educadoras. Conteúdos programáticos recheados de matérias voltadas para a realidade dos parcos recursos, de necessidades ilimitadas e do maior conhecimento da Pátria: Economia Doméstica, Educação Moral e Cívica, Organização Social e Política do Brasil, Desenho, Geometria, Canto, Música, Puericultura, Religião, entre outras,  hoje esquecidas, lamentavelmente, nas grades curriculares dos velhos arquivos de seus saudosistas egressos.

Enfim voltei lá, onde vou de quando em vez, por outras razões que não as de hoje, data comemorativa dos 90 anos da escola e para o ano vindouro – 2010 – centenário da Congregação da Imaculada Conceição. Ali congregaram e ainda congregam numerosas “Conceiçãos” de outros nomes: Calixtas, Bernates, Rafaelas, Petronilas, Firminas,  Consolatas,  Ritas, Leodgards, Raimundas, Celinas, Antonianas, Iedas . . . meu Deus quantas imaculadas mulheres num rosário de nomes que eu não conseguiria aqui desfilar as contas.

Outras tantas,  imaculadas de outras virtudes, não poderiam passar despercebidas nestes ditos rosários de contas intermináveis de Shades, Raimundinhas e Minuzas, Cotinhas e Chiquinhas (Cardoso e Dindinha). Nanã, a outra mãe, de leite e coração; Tias Marias e Izabel  da minha infância sem par. Das benção de D. Elza a nos desejar fortuna todos os dias. 

Mulheres!

Hoje, como nunca antes acontecido, lembrei que eram mulheres: negras, mulatas, brancas, caboclas, nordestinas, alemãs, americanas do norte, holandesas. Mulheres de corpo e de dor.  Mulheres do lombo dos magros cavalos e burros carregando consigo um “caçuá” de amor na sua carga solitária.  Mulheres cujo prazer do corpo foi conduzido para a sublimação no amor naqueles idos anos de curas impossíveis, de tuberculoses que se transformavam em sentença e morte para muitas.  Mulheres como nunca as vi, como nunca as senti, como nunca as percebi. Eram apenas freiras, irmãs. Para nós, apenas mulheres de vestes, palavras e gestos de solidariedade, generosidade e humanismo da cabeça aos pés.  Mulheres movidas por um único sentimento: o do amor. Não o amor que se fala, discursa, verbaliza e promove. Eram mulheres do amor que se faz, pois fizeram.

Orfanato São José, Escola de formação de mulheres que enfim, ao passar dos anos, graças ao bom Deus, resolveram incluir-nos, aos homens, até então desprotegidos de letras e nomes, mas não desprotegidos da palavra Sagrada nas missas saudosas e contritas de Frei Rogério embaladas pelos cantos Marianos de Néo Justino, Filó, Silvano, Miguel das Freiras, Dionísio, Raimundo e Manoel Barbosa, entre outras tantas vozes que até hoje não calam e ecoam no íntimo de minhas reminiscências de sacristão, no refrão saudoso do “Oh mocidade mariana avante!”

Das lembranças de cristão daqueles anos idos resta-me a solidão na companhia destas ditas lembranças. Tempos de padres Confessores de antes, durante e depois da missa. Confessores que na mais pura falta de concepção real da catarse psicanalítica, praticavam a mais profunda doutrina Freudiana ao tornarem-se mais que pregadores da palavra, verdadeiros terapeutas da dor da alma. E ali recomeçávamos a cada domingo uma nova vida com novos propósitos entre Cruzadas, Filhas de Marias, Marianos e Apostolados.

Tempos de grandes pregações da palavra, razão maior da ritualística,  em que éramos aconselhados ao bem, à justiça e à fraternidade. Tempos de contrição e silêncio diante do Altar de Deus.  Tempos anteriores a Opção Preferencial pelos Pobres, as encíclicas, aos concílios. Não era a Igreja de Deus, era a Igreja de Jesus e de seu Novo e Verdadeiro Testamento de Amor, pregados e realizados pelas abnegas Irmãs da Congregação da Imaculada Conceição e pelos Padres Franciscanos.

Enfim, saudades e agradecimentos eternos a estas que fizeram a base inabalável da minha vida – a fé.





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